Segunda-feira, 17 de Abril de 2006

Para ti avô

Este poema é dedicado a alguém muito especial para mim, mas que infelizmente já não está no mundo dos vivos. Foi com ele que aprendi muito do que sei hoje, e foi ele que fez de mim a pessoa que sou. Onde quer que estejas, avô, nunca te esquecerei...tenho saudades tuas.

Relato de uma vivência…
 
 
Estava sentado em frente da casa, nos degraus de madeira da escada antiga.
 
Era idoso, entre os 70 e 80 anos, e tinha o olhar fixo num ponto qualquer da rua em frente, com árvores enormes, rigorosamente alinhadas de ambos os lados.
Não havia carros na rua, e o olhar triste do homem idoso lá continuava parado, absorto nos seus pensamentos, nas suas recordações, decerto do tempo que passara tão depressa, nas mudanças que aconteciam tão inesperadas e imprevistas.
A boina não cobria totalmente os cabelos brancos e curtos, nem a face magra marcada pela vida obviamente de camponês.
Mãos calejadas e braços secos do duro trabalho do campo.
O seu aspecto, embora sombrio era benevolente, embora triste era gentil, embora parado era nobre.
 
Via-o ali com frequência e nem sabia se seria ou não de cá, mas o aspecto não enganava, como não enganavam as roupas, como não enganava a boina.
Decidi falar-lhe naquela tarde.
 
Parei em frente da porta da cerca de madeira, que circundava o espaço, onde a relva verde crescia. Estava cortada e limpa entre as escadas onde o homem se sentava e o passeio de cimento do outro lado da cerca.
 
"Boa tarde senhor", disse-lhe;
 
O levantar do rosto quase antes de acabar a frase, reflectiu um brilho repentino, que num instante deu vida aos olhos.
 
Um sorriso cansado que naquele momento, alegrou seu rosto de sulcos profundos, que marcavam a passagem inexorável do tempo, tornavam desnecessária a pergunta que iria seguir-se, mas que, mesmo assim perguntei:
 
- O senhor é daqui?
 
Respondeu negativamente, e na sua voz notava-se a alegria de ter alguém com quem falar, de preencher a tarde vazia e interminável e FALAR. Arrancar a mordaça que a vida lhe implantara, ainda que por instantes.
 
Perguntei se estava bem, se gostava de estar ali.
 
Disse que sim, que estava bem, o problema era estar só, seu filho e nora estavam no trabalho, seus netos na escola e ele ali, estava sozinho, sem nada que fazer o dia inteiro, sem ter com quem falar.
 
Tive pena do homem e decidi ficar a fazer-lhe companhia e a conversar da vida, da sua, e sentir ao mesmo tempo, o drama de quem é arrancado ás suas raízes já na curva descendente da vida, quando a esperança de construir mais coisas já não existe, quando o sentimento de sentir o mundo a girar em seu redor já se perdeu, quando o fim já se torna bem visível no horizonte e não há forma possível de o transformar ou alterar a sua direcção.
 
Perguntei-lhe se lembrava da terra, se ainda lá tinha família ou amigos, se pensava voltar...que tinha deixado na sua aldeia que mais se lembrava.
 
Respondeu que família não tinha, sua companheira já partira havia 4 anos, seus amigos quase todos também...mas que gostaria de voltar, tinha umas saudades imensas de sua horta...e ao falar na horta, os seus olhos brilharam mais, com uma lágrima que se soltou enquanto a voz ficou por momentos presa em palavras que não saíam.
 
Ficou calado por momentos, vergado pelo peso da emoção que não conseguia esconder, pela lágrima que teimava em não sumir de seus olhos.
 
Senti o seu drama com ele, naquela lágrima furtiva, naquele olhar iluminado pela lembrança, mas ao mesmo tempo toldado pela saudade da terra, sua companheira e sua mãe, seu mundo e sua missão, sua raiz e sua referência.
 
Disse-me que tinha a horta mais bem cuidada das redondezas, nem uma erva, nem uma pedra se via na terra sempre limpa. Laranjeiras e pessegueiros, pereiras e macieiras sempre davam os melhores frutos de entre todas as da redondeza.
 
Falava entusiasmado do milho e do feijão, do tomate e das couves, como se cada palavra que dizia fosse mais uma semente que plantasse, mais uma alface que colhesse. Vivia as palavras, alternando nelas a alegria e a tristeza que a lembranças traziam em cada frase e em cada gesto que fazia.
 
Falou...falou...soltou na minha presença os seus pensamentos acumulados, as suas angústias e desejos, as suas lembranças e pesadelos.
 
Falou-me horrorizado do mato e das silvas que decerto já tomaram conta da terra, da horta sempre tão bem cuidada, do poço que também devia estar cheio de silvas, das árvores que se calhar nunca mais haviam sido podadas e cavadas.
 
Havia amargura e desespero na sua voz, carinho e inquietação, como se a horta fosse o seu ente mais querido neste mundo.
 
Fiquei a olhar, a escutar, e a sentir o drama deste homem simples que se contentava com tão pouco na vida. Senti a sua tristeza mas também a sua energia.
 
Fiquei fascinado e maravilhado pela imagem deste homem, que em plena sociedade de consumo, de conforto e de vida fácil, continuava fiel e inalterado na sua essência e nas suas referências.
 
Também minha voz ficou presa na garganta...em palavras de conforto que nunca dariam a este homem o conforto que precisava...
 
Vislumbrei também com clareza um drama e um dilema, que todos os dias se repete por quem um dia partiu carregado de sonhos, mas sem a noção do impacto que esse passo viria a ter um dia na sua vida e caminhada e na dos outros à sua volta, do efeito e das consequências. Um drama que todos os dias se repete em todo o mundo, num movimento constante de massas, quantas vezes tragicamente e desumanamente exploradas, e fiquei feliz porque pelo menos isso o homem não sofria. Tinha conforto e carinho, atenção e respeito. Era tratado com dignidade e o cuidado que merecia, situação que nem sempre se verifica nas famílias imigrantes que trazem seus pais para junto de si. Nem todos nós cuidamos de nossos familiares como devemos...muitos deles são mal cuidados e desprezados.
 
Fiquei, não sei quanto tempo, e quando fui embora o senhor ainda tinha coisas por dizer, experiências para dividir. Pediu-me para voltar e conversar com ele. Pediu também desculpa se tinha sido maçador.
Respondi que não...que tive imenso prazer em estar ali com ele, e prometi que voltaria.
 
O tempo entretanto foi passando, mas como prometido voltei. Sempre que eu por lá passava as escadas estavam vazias.
 
Não vi mais o homem idoso...a árvore secando lentamente fora do seu habitat, mas a imagem ficou nas palavras, no olhar, na descrição carinhosa e intensa da sua horta.
Ficou também na minha mente e consciência, mais um momento da vida de alguém, que eu adoptei também e transformei num momento meu, numa imagem que decerto não quero viver.
 
Não vi mais o homem idoso, mas não o ter visto nada muda, continuam a existir por esse mundo milhares de idosos, sentados em escadas olhando a vida passar, caindo lentamente sem esperança de voltar um dia à terra que os viu nascer.
 
Triste esta vida…
 
Triste, mas real e autêntica, neste mundo de dramas escondidos, de imagens falsas, de realidades perturbadoras, que raramente vêm à superfície.
 
Não perguntei o nome do senhor...nem precisei...!
 
O seu nome é decerto o meu...o teu...o nosso!
 
 
 
* Embora este texto tenha sido imaginado, e não tenha nada a ver, lembrei-me de ti avô…tenho saudades tuas
Jamais te esquecerei, por mais tempo que viva, a forma do teu rosto, dos teus olhos, do teu sorriso. Jamais esquecerei as palavras sábias ou o carinho do teu olhar quando me vias. Jamais te esquecerei avô, porque na minha vida foste, és e serás sempre o meu avô querido que tanto amo... porque se na minha vida te não tivesse conhecido, com certeza não seria a pessoa que sou hoje, seria muito menos feliz... Amo-te para sempre avô, e espero que lá, nesse sítio para onde te levaram, continues sempre a olhar por mim, que eu vou recordando-te por aqui..."
 
Miguel Sousa
 
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publicado por miguel_sousa às 09:51
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